
UMA FUGA ALGUNS POETAS E NÃO SEI QUANTAS IMORTALIDADES
Tchello d’Barros *
Quem quer ser imortal? A priori, todo mundo, né! Apesar de que Jonathan Swift, em seu antológico romance Viagens de Gulliver demonstra que isso pode não ser lá uma idéia tão atraente assim. Ou, noutra perspectiva, há aquela anedota do padre que pede para a platéia que levantem a mão todos os querem ir para o céu. Todos levantam a mão. Ato seguinte, pede para levantarem a mão todos os que gostariam de ir para o céu hoje! Ninguém levanta a mão...
Desde que a apareceu essa nova biblioteca-de-babel interativa, que por falta de nome melhor continuamos chamando de Internet, se observa um curioso fenômeno literário: a quantidade absurda de pessoas que da noite para o dia se transformaram em escritores, poetas e afins, considerando-se a facilidade dos meios de publicação e divulgação na rede e até mesmo fora dela. Agora, ser poeta é mais fácil. E mais fóssil também. Mas também não faltam os que criticam esse advento, pois dizem que essa gente não estuda literatura, e sai por aí publicando o que dá na telha, não sabem nem a diferença entre poema e poesia, desconhecem a linha tênue que separa um conto de uma crônica, ou um artigo de um ensaio, e por aí vai. Independentemente dessas considerações, talvez seja interessante olhar um lado bom dessa moeda: nunca antes na história desse país se leu tanto, se escreveu tanto, se deu tanta chance de as pessoas se expressarem. O povo está mais letrado. E no meio desse palheiro de escrevinhanças, vez ou outra surge uma agulha, um talento genuíno, alguém que tem a alta literatura fervendo nas veias.
Uma decorrência, ou consequência, digamos assim, tem sido a proliferação das tais academias literárias, de letras, de artes, de cultura, com seus patronos, cadeiras, medalhas, solenidades, placas, trajes, discursos e homenagens, em quase tudo semelhando a polêmica ABL, que por sua vez imita a academia francesa, com direito ao seu chazinho semanal e tudo mais. Grassa por aí (antes fosse o mestre Graça) todo naipe de novas academias: virtuais, sul-americanas, nacionais, federativas, estaduais, regionais, municipais e se duvidar deve haver já as de bairro ou mesmo de rua... Outra vez aparecem os críticos, os que dizem que isso é versão contemporânea de uma coisa passadista, que essa gente só quer se imortalizar, que qualquer um publica um livro hoje, mesmo sem qualidade e entra para esses grupos, que isso é questão de ego, etc. Outra vez, não se pode generalizar em julgamentos, pois existem algumas que de fato comprem um papel cultural, promovendo debates sérios, realizando eventos literários em escolas, criando ações de estímulo a leitura e tudo mais. Enfim, existem associações de escritores que acabam fazendo aquilo que os gestores públicos da área da cultura são pagos para fazer, mas não fazem.
Mas, antes de chegarmos ao assunto do título, duas notinhas pessoais: no início da década de noventa, o relator dessas linhas recusa convite para assistir a posse da romancista Urda Klueger na Academia Catarinense de Letras, e recusa não para desprestigiar a autora, mas por um certo desconforto com os ritos e todas as pompas desse tipo de circunstância. Já nesta década, numa das cidades em que morei, recebi convite “oficial” para ser membro de uma dessas academias municipais, com garantia de imortalidade e tudo mais. Mortal convicto, de forma muito deselegante, sequer respondi a honraria, lembro mesmo que a carta foi para o lixo como um sanduíche entre uma correspondência de uma editora que recusara publicar um livro meu e umas fotocópias com poemas de um desses poetastros provincianos que sempre tem por aí. Nada contra aquele convite, apenas que na época, lembrei com meus botões, de Rimbaud, que recusou convite de uma instituição dita literária, por acreditar que não deveria dar maior credibilidade a uma instituição que convidava tipos como ele... Mas, voltando para tempos mais recentes, rememoro a agradável ocasião de ter prestigiado na Academia Alagoana de Letras, que é integrada também por Lêdo Ivo, a posse da poeta Vera Romariz, cuja apresentação foi conduzida pela escritora Arriete Vilela, em discurso pautado por oportunas citações literárias, que ainda hoje reverberam.
Para o bem ou para o mal, a realidade é que muitos autores contemporâneos, são avessos a instituições, formalidades, solenidades e homenagens, seja por timidez, aborrecimento ou mesmo uma crítica pessoal a esse tipo de coisa. Talvez o caso mais emblemático seja o do gaúcho Mario Quintana, notoriamente avesso a ambientes afetados, holofotes da mídia e entrevistas. Dizia que preferia sofrer um atentado do que receber uma homenagem, pois é mais rápido e não tem discursos... Como se sabe, a gauchada ficou meio constrangida quando o poeta foi recusado na Academia Brasileira de Letras, e isso ocorreu por três vezes naquela entidade que de vez em quando empossa políticos e empresários. Desnecessário lembrar que nunca foi idéia dele candidatar-se a imortalidade naquela colenda casa fundada por Machado de Assis. Interpelado sobre as recusas, Mario costumava dizer, com sua ironia de sempre, que essas academias eram apenas sociedades recreativas e funerárias. O resultado todos sabem, não entrou para a academia mas entrou no coração do povo brasileiro, ou daquela parcela que aprecia a boa poesia, pois ele mesmo dizia que o verdadeiro analfabeto é o que aprende a ler mas não se interessa em ler.
Uma das inúmeras “lendas urbanas” que correm na capital gaúcha a respeito do autor de Velório sem Defunto, é que certa vez ele seria homenageado por uma grande empresa, num jantar pomposo, precedido de coquetel, com colunistas sociais, madames com casacos de pele, mesa de honra e muitas autoridades no protocolo. Ainda no coquetel, perguntou para sua secretária o que ela achava de eles simplesmente fugirem dali. Ela argumentou que não poderiam, que apesar dos discursos ele era o grande homenageado, receberia uma placa e tal, e que os anfitriões estavam na porta recebendo os convidados. Ele falou então que poderiam dizer que sairiam rapidamente só pra comprar um cigarro. E foi o que fizeram. Uma vez na rua, a liberdade.
Concluindo, não será demais citarmos Jorge Luis Borges, que tratou em seus contos e ensaios do tema da imortalidade, tanto na vida como na literatura. O autor do conto O Imortal dizia que, num sentido real, físico mesmo, ninguém está totalmente livre de ser o primeiro imortal.
Desde que a apareceu essa nova biblioteca-de-babel interativa, que por falta de nome melhor continuamos chamando de Internet, se observa um curioso fenômeno literário: a quantidade absurda de pessoas que da noite para o dia se transformaram em escritores, poetas e afins, considerando-se a facilidade dos meios de publicação e divulgação na rede e até mesmo fora dela. Agora, ser poeta é mais fácil. E mais fóssil também. Mas também não faltam os que criticam esse advento, pois dizem que essa gente não estuda literatura, e sai por aí publicando o que dá na telha, não sabem nem a diferença entre poema e poesia, desconhecem a linha tênue que separa um conto de uma crônica, ou um artigo de um ensaio, e por aí vai. Independentemente dessas considerações, talvez seja interessante olhar um lado bom dessa moeda: nunca antes na história desse país se leu tanto, se escreveu tanto, se deu tanta chance de as pessoas se expressarem. O povo está mais letrado. E no meio desse palheiro de escrevinhanças, vez ou outra surge uma agulha, um talento genuíno, alguém que tem a alta literatura fervendo nas veias.
Uma decorrência, ou consequência, digamos assim, tem sido a proliferação das tais academias literárias, de letras, de artes, de cultura, com seus patronos, cadeiras, medalhas, solenidades, placas, trajes, discursos e homenagens, em quase tudo semelhando a polêmica ABL, que por sua vez imita a academia francesa, com direito ao seu chazinho semanal e tudo mais. Grassa por aí (antes fosse o mestre Graça) todo naipe de novas academias: virtuais, sul-americanas, nacionais, federativas, estaduais, regionais, municipais e se duvidar deve haver já as de bairro ou mesmo de rua... Outra vez aparecem os críticos, os que dizem que isso é versão contemporânea de uma coisa passadista, que essa gente só quer se imortalizar, que qualquer um publica um livro hoje, mesmo sem qualidade e entra para esses grupos, que isso é questão de ego, etc. Outra vez, não se pode generalizar em julgamentos, pois existem algumas que de fato comprem um papel cultural, promovendo debates sérios, realizando eventos literários em escolas, criando ações de estímulo a leitura e tudo mais. Enfim, existem associações de escritores que acabam fazendo aquilo que os gestores públicos da área da cultura são pagos para fazer, mas não fazem.
Mas, antes de chegarmos ao assunto do título, duas notinhas pessoais: no início da década de noventa, o relator dessas linhas recusa convite para assistir a posse da romancista Urda Klueger na Academia Catarinense de Letras, e recusa não para desprestigiar a autora, mas por um certo desconforto com os ritos e todas as pompas desse tipo de circunstância. Já nesta década, numa das cidades em que morei, recebi convite “oficial” para ser membro de uma dessas academias municipais, com garantia de imortalidade e tudo mais. Mortal convicto, de forma muito deselegante, sequer respondi a honraria, lembro mesmo que a carta foi para o lixo como um sanduíche entre uma correspondência de uma editora que recusara publicar um livro meu e umas fotocópias com poemas de um desses poetastros provincianos que sempre tem por aí. Nada contra aquele convite, apenas que na época, lembrei com meus botões, de Rimbaud, que recusou convite de uma instituição dita literária, por acreditar que não deveria dar maior credibilidade a uma instituição que convidava tipos como ele... Mas, voltando para tempos mais recentes, rememoro a agradável ocasião de ter prestigiado na Academia Alagoana de Letras, que é integrada também por Lêdo Ivo, a posse da poeta Vera Romariz, cuja apresentação foi conduzida pela escritora Arriete Vilela, em discurso pautado por oportunas citações literárias, que ainda hoje reverberam.
Para o bem ou para o mal, a realidade é que muitos autores contemporâneos, são avessos a instituições, formalidades, solenidades e homenagens, seja por timidez, aborrecimento ou mesmo uma crítica pessoal a esse tipo de coisa. Talvez o caso mais emblemático seja o do gaúcho Mario Quintana, notoriamente avesso a ambientes afetados, holofotes da mídia e entrevistas. Dizia que preferia sofrer um atentado do que receber uma homenagem, pois é mais rápido e não tem discursos... Como se sabe, a gauchada ficou meio constrangida quando o poeta foi recusado na Academia Brasileira de Letras, e isso ocorreu por três vezes naquela entidade que de vez em quando empossa políticos e empresários. Desnecessário lembrar que nunca foi idéia dele candidatar-se a imortalidade naquela colenda casa fundada por Machado de Assis. Interpelado sobre as recusas, Mario costumava dizer, com sua ironia de sempre, que essas academias eram apenas sociedades recreativas e funerárias. O resultado todos sabem, não entrou para a academia mas entrou no coração do povo brasileiro, ou daquela parcela que aprecia a boa poesia, pois ele mesmo dizia que o verdadeiro analfabeto é o que aprende a ler mas não se interessa em ler.
Uma das inúmeras “lendas urbanas” que correm na capital gaúcha a respeito do autor de Velório sem Defunto, é que certa vez ele seria homenageado por uma grande empresa, num jantar pomposo, precedido de coquetel, com colunistas sociais, madames com casacos de pele, mesa de honra e muitas autoridades no protocolo. Ainda no coquetel, perguntou para sua secretária o que ela achava de eles simplesmente fugirem dali. Ela argumentou que não poderiam, que apesar dos discursos ele era o grande homenageado, receberia uma placa e tal, e que os anfitriões estavam na porta recebendo os convidados. Ele falou então que poderiam dizer que sairiam rapidamente só pra comprar um cigarro. E foi o que fizeram. Uma vez na rua, a liberdade.
Concluindo, não será demais citarmos Jorge Luis Borges, que tratou em seus contos e ensaios do tema da imortalidade, tanto na vida como na literatura. O autor do conto O Imortal dizia que, num sentido real, físico mesmo, ninguém está totalmente livre de ser o primeiro imortal.
* Tchello d’Barros é escritor e artista visual.
www.tchello.art.br
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